“E assim caminha a humanidade"
Definitivamente,
eu não integro aquele grupo, infelizmente cada vez mais numeroso, que faz da
vida uma reprodução do que lê nas revistas, vê nos sites e programas de TVs, ou
ouve dos 'bem-sucedidos', sem ao menos o mínimo de filtro e de
responsabilidade. Essa aceitação
incondicional do interesse alheio (que tem como base o consumo e uma desforme projeção de sucesso), estimulada pela falta de reflexão e
consciência, traz como consequência uma aplicação progressiva de atitudes
interesseiras, egoístas e até desumanas. Criado um exército de autômatos da
banalidade e futilidade, ele é guiado por uma vaidade ainda muito maior que a
inconsequência. E a alimentação desenfreada do ego (sempre frágil, porém
robusto e prestes a explodir) e, por tabela, a inibição da consciência tornam a
nossa sociedade composta por uma quantidade assustadora de pessoas
egocêntricas, egoístas e megalômanas. Elas usam falsamente o interesse coletivo
para buscarem sua satisfação pessoal, muitas vezes regida pela fama e (ou)
conta bancária recheada, como se estes fossem os prêmios a serem alcançados por
estarem aqui nesta vida, neste momento. São os famosos “Primeiro eu, sempre”,
“Danem-se os outros”, “Quero levar vantagem”, “Ganho o que com isso?”, claro,
nunca ditos abertamente para não evidenciar que interlocutor é centralizado e
hipócrita. Conheço bem isso, porque individualismo e hipocrisia já fizeram
parte de minhas atitudes. Hoje não mais.
O cotidiano nos ‘brinda’ com
situações diversas etentadoras, porém que convergem para o mesmo buraco
conhecido: o da individualidade, lotadinho de egos disformes e gigantescos,
porém vulneráveis e vazios. Quantas vezes já vimos, por exemplo, um motorista
impaciente e grosseirão buzinar assim que o sinal fica verde, ou nem tirar o pé
do acelerador (alguns até aceleram pra assustar) quando vê alguém, igualmente
impaciente, atravessando? Tem também aqueles (envoltos em sua espessa bolha da
individualidade) que sequer dizem obrigado, bom dia ou manifestam qualquer
outra relação de aproximação e simpatia. Inúmeros e renomados psicanalistas
ressaltam que, em muitos casos, tais atitudes, na realidade, mascaram
frustrações e complexos de inferioridade no trabalho, no círculo de amizade ou
até mesmo em
casa. Para esses
reprodutores da ‘individualidade coletiva’, o que conta é se sentirem, de
alguma forma, melhores do que os outros, ou protegidos contra qualquer
possibilidade de confronto. A timidez excessiva (que me acompanhou a maior
parte da minha vida) é um exemplo perfeito de ‘pseudo-antídoto’ para a
contrariedade. A não exposição evita análises, cobranças e decepções, mas
também impede interação e crescimento, tornando o carinha um solitário no meio
da multidão, um ser frágil e incompleto, que não teve coragem de vencer
barreiras e viver sentimentos tão imprescindíveis para qualquer um que passe
por essa vida.
O conceito contemporâneo de
felicidade (falsamente ditado pelo poder do dinheiro, da fama, do status ou de
um objetivo questionável) empurra a sociedade para relações cada vez mais
inconsistentes, insossas e covardes, achatando, deformando e aniquilando
sentimentos tão bons e nobres como solidariedade, respeito, companheirismo,
todos que passam a andar de mãos dadas (e apertadas) ao interesse. “É
importante ‘PRA MIM’ ser solidário?”, “Pra que respeitar os outros?” e “O que
ganho em troca sendo companheiro?” são algumas das perguntas que povoam a
‘racionalidade’ de muitos hoje em
dia. E o
que é ainda mais preocupante: são interrogações que atingem ambos os sexos, todas
as classes (sociais e profissionais), idades, nacionalidades e raças. Até as
famílias, antes protegidas e atadas por laços bem justos, estão se decompondo
com relações hipócritas e interesseiras.
Curiosamente, quando o egoísmo alheio é exposto nos meios de comunicação, invariavelmente vemos muitos se mostrarem chocados e até mesmo indignados, revelando à pessoa que está ao seu lado no bar, no trabalho, na rua ou até em casa, todo seu inconformismo com situação ‘tão lamentável’. Passado o momento do ‘impacto’, os então incomodados com a individualidade do OUTRO retomam os passos de suas caminhadas sem ao menos olhar para os lados e seguem rumo ao que lhes interessa.
E o amor? Cadê o amor? Pois é justamente por hoje o amor ter se tornado um sentimento descartável e com data de validade, que o egoísmo vem tomando conta de tudo e mudando conceitos, distorcendo relações e incentivando a mentira, o desrespeito e o interesse individual. É nele, no amor verdadeiro, que está o condutor da verdade, do respeito, da solidariedade. A prática do amor, e suas consequências, é um exercício diário que invariavelmente nos leva a um crescimento pessoal (individual sim), mental e espiritual. E o equilíbrio (essência para qualquer pensamento, palavras e atitude), entre essas três camadas sempre nos dará o norte, nos apontará a linha do horizonte, nos indicará o sol e nos guiará em direção à pura e verdadeira felicidade.